Entrevista com Richard Stallman
( Original version – in english )
Acho que não é necessário dizer quem é Richard Stallman, mas vamos lá:
Richard Matthew Stalman, ou apenas RMS, é o fundador do sistema operacional
GNU e da GNU.org, organização criada para difundir o uso do software livre.
É um pouco difícil entrevistar alguém como Stallman. Tentei fazê-lo falar
sobre coisas mais técnicas, mas ele realmente é um cara preocupado principalmente
com a ideologia por trás do software livre. Liberdade é seu sobrenome e ele a
defende com todas as forças.
É também um cara que, ao que me parece, não tem muito bom humor e é completamente
intolerante quanto a interpretações equivocadas de sua ideologia.
Em uma das perguntas que eu fiz, mencionei “comunidade open source” e ele, prontamente
me mandou um email – quase uma bronca – me explicando que não se deve usar este termo.
Veja a explicação dele sobre essa questão da denominação open source:
“Eu acho que vejo um sinal de comum mal-entendimento. Você acha que
software livre significa software distribuido sob a GNU GPL? Não é assim,
isso é um equívoco.
Software livre significa software que respeita as quatro liberdades
essenciais.
- 0: liberdade para rodar o programa
- 1: A liberdade de estudar o código fonte e modificá-lo.
- 2: A liberdade de fazer cópias e distribuí-las para os outros
- 3: A liberdade de publicar uma versão modificada
A GNU GPL é uma licença de software livre e é a que eu recomendo na
maioria dos casos, mas há muitas outras, incluindo a MPL. 
Veja gnu.org/licenses/license-list.html para uma lista
de muitas licenças de software. À medida que a licença de um programa
é livre, o programa é eticamente legítimo – pelo menos em relação ?
questão de como ela trata a liberdade dos usuários.
O critério para “open source” foi projetado seguindo as idéias
do software livre, mas elas tem divergido de certa forma.
Apesar disso, praticamente todos os programas “open source” são
softwares livres e vice-versa.
A principal diferença entre software livre e open source está na
filosofia; “open source” se tornou o rótulo para uma filosofia
como a de Torvalds, que não se apresenta como uma questão ética.
Por isso eu me recuso a aceitar o rótulo “open source” para o
meu trabalho: Este rótulo se destina a descartar a filosofia,
que é a coisa mais importante.”
Bom, vamos ? entrevista:
Bruno Torres – Você não gosta quando as pessoas chamam o GNU/Linux apenas de Linux.
Ok, GNU/Linux é o nome correto, já que o sistema operacional é composto mais pelos
softwares GNU do que de Linux – que é apenas o kernel. Mas, você não acha que o
mais importante é o fato de as pessoas estarem usando e o nome não deveria ser levado
tão a sério?
Richard Stallman – Nós precisamos que o público saiba sobre o trabalho que fizemos no
passado, para que então possamos ter seu apoio para o nosso trabalho
futuro.
Se o objetivo é construir uma sociedade livre, não é suficiente apenas
colocar a liberdade na mão das pessoas. Se elas não a apreciarem, a deixarão
cair, e a perderão. Se nós queremos que a liberdade resista, temos que
ensinar as pessoas a reconhecer o seu valor para que possam defendê-la.
O uso frequente de software tem apenas uma década, e a sociedade está apenas
começando a lutar pela questão dos direitos dos usuários de computador.
A maioria das pessoas nunca ouviu falar sobre a idéia de que elas devem ter a
liberdade de compartilhar e modificar o software que usam. Até mesmo
a maioria dos usuários de GNU/Linux nunca ouviu isso, porque a maioria
das pessoas que recomendam e escrevem sobre o sistema não falam sobre isso.
Muitos escritores adotam uma perspectiva comercial, ou o tratam meramente
como uma opção técnica.
Não é coincidência que muitos usuários de GNU/Linux já tenham deixado
que a liberdade escorregue por entre seus dedos. Olhe quantas distribuições
GNU/Linux incluem softwares não livres como um “bônus” – esta prática se
tornou popular porque os usuários não perceberam que estavam abrindo mão de
alguma coisa. A maioria deles ainda não sabe. O principal trabalho do
projeto GNU hoje é ensinar as pessoas primeiro a entender sua liberdade e
então a valorizá-la.
Leva tempo para explicar essas idéias, e nós apreciamos sua ajuda em
explicar, se você quiser ter todo esse trabalho. Mas o mínimo que você
pode fazer é chamar o sistema de “GNU/Linux”. Leva muito pouco tempo, e
mesmo não explicando de fato, pelo menos torna nossas explicações mais
efetivas.
Essas idéias de liberdade são geralmente associadas ao nome GNU, não
ao nome Linux. As pessoas ouviram que Linus Torvalds escreveu o Linux
pra aprender e se divertir, e ele não acredita que haja um dever ético
do software de ser livre. Quando as pessoas acreditam que Linux é o
sistema inteiro, elas acham que ele vem principalmente da filosofia de
Torvalds. No entanto, se elas souberem que o sistema é GNU, então quando
elas lerem sobre nossa filosofia de liberdade, irão reconhecer que é a
fundação do sistema operacional que elas apreciam. Então é mais
provável que elas escutem o que nós dizemos com mais atenção.
BT – Qual a sua opinião sobre a iniciativa da Microsoft com o programa
“shared source”?
RMS – Se você comparar as práticas da Microsoft com a definição de
software livre, vai ver que elas tem muito pouco em comum.
Não há nada novo em se distribuir código fonte proprietário sob
um acordo de não revelação para certos clientes. Foi assim que a AT&T
distribuiu o Unix nos anos 80. Minha resposta a isso foi começar o
desenvolvimento de um substituto livre para o Unix – o sistema GNU.
BT – GNU/Linux está profundamente inserido no mercado de servidores, mas
nos desktops seu uso ainda é bastante modesto. Você acha que algum dia
ele irá dominar esse mercado? O que está faltando? O que está sendo
feito pra tornar isso possível?
RMS – Como os telecentros no Brasil mostram, o GNU/Linux já é utilizável
por pessoas leigas em desktops e laptops, e elas já estão começando a
adotá-lo.
No entanto, é errado nesse contexto falar desses potenciais usuários como
um “mercado”. Se nós estivéssemos falando sobre vender cópias de GNU/Linux
a elas (o que é perfeitamente legal), elas seriam um mercado, mas o nosso
trabalho é estabelecer a liberdade, não vender. Eu penso nessas pessoas
como pessoas de quem a liberdade foi tirada e precisa ser devolvida,
como habitantes de uma parte do cyberespaço que ainda precisa de
liberdade.
BT – Você fala frequentemente que o Brasil é um dos países mais importantes
na comunidade do software livre. Porque é bom para um país (principalmente
o governo) adotar o software livre? No caso específico do Brasil, o que
se pode ganhar com isso?
RMS – A coisa mais importante que você ganha com o software livre é a
liberdade: liberdade de ser parte de uma comunidade, e controlar livremente
seu próprio computador. Como benefícios secundários, você pode também
economizar dinheiro e ter o software melhor adaptado para as suas necessidades,
mas nós não devemos nos focar nesses benefícios secundários e esquecer da
questão principal.
BT – Você acha que os esforços do atual governo federal do Brasil em defesa
do software livre estão bons, ou deveriam ser melhores em algum aspecto?
RMS – Não sei os detalhes precisos, mas acho que eles são bons.
No entanto, eles provavelmente podem ser melhorados. O mais importante
de tudo é que as escolas em todos os níveis migrem para software livre.
Escolas deveriam treinar a nova geração para ser forte, capaz e acostumada
com a liberdade e cooperação, não conduzida a um estado de permanente
dependência de corporações estrangeiras que proíbem as pessoas de ajudar
seus vizinhos.
O governo e as escolas deveriam apoiar o desenvolvimento sustentável
com tecnologia apropriada. Uso de software não livre é dependência,
não desenvolvimento: Pessoas locais não podem mantê-lo ou adaptá-lo
são proibidos de entendê-lo. Apenas o uso do software livre é real
desenvolvimento.
BT – Fora as questões ideológicas, quais argumentos você usaria para
tentar mostrar a alguém os benefícios do GNU/Linux?
RMS – Eu menciono os benefícios de confiabilidade, segurança e economia
de dinheiro; mas eu nunca falo exclusivamente sobre esses benefícios
secundários quando falo ao público. Há muitas pessoas que não valorizam
a liberdade, mas o meu objetivo é ensiná-las a velorizá-la, e eu não
posso fazer isso agindo como se eu não a valorizasse.
BT – Você usa estritamente softwares livres ou softwares open-source
tem algum espaço no seu HD?
RMS – Eu uso apenas software livre. Como eu expliquei acima, quase
todo “software open-source” é software livre.
Não há razão para usar o termo “open source” no Brasil. Falando
de software livre, nós lembramos ? s pessoas que a liberdade é
importante.
BT – Qual a sua opinião sobre a participação de grandes companhias -
como IBM, Sun e Oracle – no apoio ao GNU/Linux e software livre?
Já que eles comercializam software proprietário, sua participação
pode ser ruim de alguma forma?
RMS – IBM e Sun contribuiram para o software livre de maneira substancial,
mas elas também frequentemente encorajam as pessoas a usar GNU/Linux
em conjunto com software não livre. Por exemplo, a Sun contribuiu
com o Openoffice, o que é muito importante, mas também encoraja sa
pessoas a usar a plataforma Java, que não é livre.
Eu acho que devemos julgar e comentar separadamente cada atividade
dessas companhias, ao invés somá-las para fazer uma avaliação
total. Devemos agradecê-las pelo que fazem em favor
da liberdade e criticar quando tentam atropelá-la.
O caso da Oracle é diferente; Até onde eu sei ela não contribuiu
em nada para o mundo livre. Tudo que ela desenvolve é software
não livre.
PS: A última pergunta que eu fiz era a mesma que fiz para o Joel Sposky. A pergunta é a seguinte: Pra você, quais são as tês tecnologias mais promissoras no mundo da TI? Fale um pouco sobre elas.
Eu fiz esta pergunta justamente para comparar as respostas de duas pessoas de mundos totalmente diferentes dentro da informática. Mas Mr. Stallman simplesmente disse “I have nothing to say about this question”, ou seja, não tenho nada a dizer sobre isso…
Que pena!
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Achei sensacional a entrevista, especialmente a convicção do autor quanto ? questão da liberdade, essencial para qualquer projeto de desenvolvimento tecnológico independente e que possa agregar valor ao nosso produto.