Martin Michlmayr - Líder do projeto Debian GNU/Linux

Nesta entrevista, Martin Michlmayr, líder do projeto debian, fala sobre o sarge, a próxima versão do Debian GNU/Linux. Uma das melhorias mais significantes no sarge em relação ao woody - a última versão estável - é o instalador. Mais fácil de usar apesar de ainda ser em modo texto. Outras melhrias são a adição de novas versões dos softwares mais importantes como Apache 2.0.52, GNOME 2.8, KDE 3.3 e XFree86 4.3.

O Debian suporta 11 arquiteturas. De acordo com Martin o sistema está bastante estável e apenas alguns pequenos problemas de infraestrutura precisam ser resolvidos antes do lançamento.

A entrevista foi feita há um mês, via IRC. Confira abaixo.

Bruno Torres - Por favor, apresente-se e fale-nos um pouco sobre seu trabalho no projeto Debian GNU/Linux.

Martin Michlmayr - Meu nome é Martin Michlmayr e eu tenho 25 anos. Participei em diversos projetos de software livre e entrei no Debian há vários anos. Estou envolvido principalmente em testes de qualidade assim como várias atividades de coordenação.

Em março de 2003, fui eleito líder do projeto Debian e estou em meu segundo semestre agora. Debian é um projeto grande e complexo com algo em torno de 1.000 desenvolvedores e 10.000 pacotes. Por isso o projeto necessita muito de coordenação.

Também tenho me envolvido em outras áreas no Debian. Por exemplo, tenho ajudado a portar nosso novo debian-installer para várias sub-arquiteturas de MIPS, como Cobalt. Além do meu trabalho no Debian, sou um estudante de PhD na Universidade de Cambridge, investigando gerenciamento de qualidade em projetos de software livre e código aberto. O alvo da minha pesquisa é aprimorar a qualidade encontrada em projetos de software livre.

BT - Até recentemente o debian-installer do sarge não estava funcionando. E agora, está funcionando bem?

MM - Sim, debian-installer está funcionando muito bem agora em todas as arquiteturas que suportamos.

BT - Quais são as características mais importantes do novo instalador?

MM - Ouvimos por anos que o Debian era difícil de instalar e o antigo instalador não era muito fácil de manter ou aprimorar. Então decidimos jogar fora o antigo instalador e começar do zero. O novo instalador é muito mais modular, o que o torna mais fácil de manter e estender. Do ponto de vista do usuário o novo instalador é muito mais fácil de usar. Ele faz menos perguntas que o antigo, faz detecção automática de hardware e tem diversas outras novas características, como detecção automática de outros sistemas operacionais instalados em sua máquina. Ele também tem suporte a RAID e LVM.

E o que nos diz de um instalador gráfico?

MM - Tem havido algum trabalho em uma interface gráfica para o instalador mas não vai ser lançado com o sarge.

Suportamos 11 arquiteturas e obviamente criamos primeiro um sistema que funcione em todas elas. Além disso, não acredito que nosso sistema baseado em texto (framebuffer) tenha muitas problemas de usabilidade comparado com um instalador gráfico. Mas sabemos que muitas pessoas estão interessadas em um instalador gráfico e certas línguas como tailandês podem até mesmo exigir isso.

Nós escolhemos um sistema muito genérico (debconf) para o nosso instalador o que torna fácil adicionar novos front-ends (interfaces). Uma interface gráfica é um dos pontos principais em nossa lista de afazeres para futuros desenvolvimentos após o sarge.

Na minha opinião o debconf é um dos grandes diferenciais do Debian em relação ? s outras distribuições. Você concorda?

MM - Debconf é um sistema muito bom que permite que os pacotes interajam com o usuário de uma forma padronizada. Com certeza é um dos bons exemplos de integração, pela qual o Debian é conhecido.

BT - Você acha que o Debian Sarge vai ser uma boa escolha para usuários de desktop?

MM - Linux em geral e o Debian tem tido grandes progressos nos últimos anos e são de certa forma certamente adequados para uso em desktops. Eu não recomendaria o Debian no desktop para pessoas que são novas no linux, mas é perfeitamente adequado para pessoas que tem alguma experiência com linux ou tem um administrador que cuida de sua máquina. A questão, claro, é se vamos lançar novas versões em pouco tempo após o lançamento do Sarge.

O desktop é muito importante para nós e sabemos que o nosso ciclo de lançamentos é simplesmente muito lento. Atualmente estamos discutindo uma mudança para um modelo de lançamentos periódicos (o modelo que, por exemplo, GNOME segue, no qual cada lançamento ;e feito n meses após o anterior de acordo com um calendário bem planejado). Obviamente, a grande questão é com que frequência poderemos lançar novas versões e aqui temos que levar em conta dois requisitos conflitantes. O pessoal dos servidores não quer atualizar muito frequentemente enquanto muitos (mas certamente não todos) usuários de desktop querem ver lançamentos freqüentes. No momento um ciclo de 12 a 18 meses está em discussão. Estamos também trabalhando em suporte de segurança para nossa distribuição de testes, o que vai permitir que as pessoas que querem software atualizado mas testado a usem.

BT - Qual versão do kernel vai ser usado no Sarge por padrão? Será como no Woody, com duas versões (2.4 e 2.6 no caso do Sarge) e deixando que o usuário escolha?

MM - O kernel padrão depende da arquitetura. Enquanto o 2.6 é padrão para máquinas PowerPC, decidimos permanecer com o 2.4 para as i386. De qualquer forma, você pode facilmente escolher o 2.6, utilizando a opção de boot linux26. A instalação com ambas as versões do kernel são bem suportadas e testadas.

BT - Por que o 2.4 para i386? Você não acha que o 2.6 é estável o bastante?

MM - 2.4 é muito mais largamente testado e sabidamente estável. 2.6 está se tornando bastante confiável também mas ainda precisa de mais testes. De qualquer forma, ambos 2.4 e 2.6 são oficialmente suportados e é muito fácil escolher.

BT - Será possível instalar o Debian Sarge em sistemas de arquivos como JFS, XFS ou até mesmo Reiser4, ou esses sistemas são ainda muito experimentais para serem suportados pelo instalador?

MM - Temos suporte a JFS, XFS e Reiser3. Não iremos suportar Reiser4 como parte de nosso kernel oficial nem do instalador já que ele foi vetado pelos desenvolvedores do kernel. De qualquer modo, fornecemos um pacote de patch para o kernel que pode facilmente ser aplicado pelos usuários que precisarem usar este sistema de arquivos.

BT - Quais serão as versões dos softwares mais comumente usados, especialmente Apache, GNOME, KDE e X que serão incluídas no Sarge?

MM - Teremos o Apache 1.3.33 assim como 2.0.52, KDE 3.2 e GNOME 2.8.

BT - O Sarge usará o XFree ou X.org?

MM - Nosso X é baseado no XFree 4.3 (a última versão livre) com um grande número de patches retirados de amboa X.org e XFree86. Vamos mudar completamente para o X.org após o Sarge.

BT - Quando poderemos comemorar o lançamento do Sarge?

MM - Ainda não há uma data definida para o lançamento. Há alguns problemas relacionados a nossa infraestrutura que precisamos acertar antes de podermos fazer o lançamento. Temos esperança que o Sarge será lançado ainda no início deste ano.

BT - Quantos CDs serão necessários para instalar um sistema Debian completo, incluindo KDE/GNOME?

MM - Acredito que a maior parte do KDE e GNOME estejam no primeiro CD.

BT - O Sarge vai incluir o rp-pppoe? No Brasil ele é muito popular e as pessoas não estão muito acostumadas a usar o pppoeconf do Debian.

MM - Sim, o rp-pppoe será incluído e na verdade já faz parte do Woody também. O pacote fonte (source) chama-se rp-pppoe mas o pacote binário que lançamos chama-se pppoe.

BT - Por que o exim é o MTA (servidor de emails) padrão no Debian, ao invés de aplicações mais conhecidas como postfix?

MM - O exim é um sistema robusto, muito fácil de configurar e suporta muitas configurações diferentes. Quando avaliamos qual seria o MTA padrão e o exim foi escolhido, o postfix ainda não estava pronto. É certamente uma boa alternativa agora mas não oferece vantagens suficientes para valer a pena trocar o padrão novamente.

BT - Por que não usar udev por padrão quando o usuário escolhe o kernel 2.6?

MM - Um grande número de mudanças tem que ser feito nos scripts de inicialização para boa integração com o udev. Isto é algo para o próximo lançamento após o Sarge.

BT - Eu acho que deveria ter opções de framebuffer no prompt de boot da instalação. Algo como a escolha de resolução de tela. Eu tive que digitar linux26 vga=791. Há planos de oferecer opções de resolução no menu de boot?

MM - O debian-installer funciona muito bem na resolução padrão. Colocar muitas opções pode confundir o usuário. Você precisa realmente usar a opção na linha de comando.

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12 Comentários sobre “Martin Michlmayr - Líder do projeto Debian GNU/Linux”

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Parabens pela publicação da excelente entrevista sobre esse notavel sistema operaciona que é o GNU/Linux DEBIAN, apesar de não ser usuário GNU/Debian, adimiro muito o projeto e, tenho certesa, que com essas novas mudanças ficarar ainda melhor


Ótima entrevista Bruno!

Seu site está virando uma espécie de Jô Soares ;-)

Leonardo Faria Coelho

Webdeveloper - Divinópolis MG


Primeiramente, parabéns pela entrevista.

Sou usuário do Sarge há mais de 6 meses e ele está funcionando de forma margnífica. A equipe da Debian também é muito competente. Parabéns ? todos eles.


Ótima entrevista, apesar de ter feito um tour por várias distribuições linux, só parei quando encontrei a Debian, uso unstable por achar o pessoal bastante conservador. O mais importante no meu ponto de vista é o dinamismo da distribuição, você pode fazer dela um mega servidor ou ótimo desktop, depois que você conhece as ferramentas você se torna um autêntico usuário debian.


#5 | Diógenes

Não só essa mais como todas entrevistas visando esclarecer os usúarios ou até mesmo matando as suas curiozidades é validade. Valeu mesmo Bruno, esta de parabens.


Gostei muito da entrevista, espero que o Debian melhore muito pois é uma das distribuições bem organizadas que temos e por causa disso estou mudando completamente do Slackware para o Debian, bem mais comodo para mim e para a comunidade do software livre ter algo padronizado e que muitas instituições (educacional, empresarial, etc) estão aceitando largamente e com apoio do Governo Federal.

Veja bem, não estou falando mau do Slackware, é uma tremenda distribuição mas é para quem tem tempo de fuçar e fuçar. É uma das distribuições do coração que vai deixar saudades mas nunca vou deixar de acompanhar a galera que mexe com ele pois muitas coisas nascem desse danado e vão para outras distribuições,

Mais uma vez prabéns Bruno pela entrevista.


Parabéns pela entrevista. Venho utilizando o Red Hat e o Fedora há cinco anos, porém o FC2 com o kernel 2.6 ficou muito instável e por isso tive que fazer um downgrade para o FC1 - muito provavelmente migrarei para o Debian, pois pelo que tenho visto o lançamento de uma nova versão é MUITO mais testada que outra distribuição, e isso se traduz em estabilidade.


#8 | Ricardo Goes

O sorriso é manifestacão dos lábios quando os olhos encontram o que o coracão procura, amo o Slackware e Mandrake e quero conhecer de verdade o Debian…..

Bruno Torres sou seu fã desde o podcast no Tabless……

Ricardo Goes


Como vimos, o debian SARG acaba sendo um grande avanço, pois instalei várias vezes o debian woody quando instalei o debian sarge tudo clariou, o modo expert também é execelente, espero que essa grande distribuição avance sem perder o quesito mais importante ESTABILIDADE.

Parabéns Brunão continue destrinchando nas entrvistas.


#10 | Dennis Augusto

Obrigado Bruno por mais uma entrevista…E admiravel o trabalho do Martin em relação ao Projeto Debian, apesar de seu um usuario fiel ao Slackware, fico muito feliz com a força profissional no ambiente GNU/LINUX.


#11 | odair figueiredo

Olá amigo ! Uma informação por favor, sou iniciante do sist. Linux,
gostaria de saber se o ubuntu possui recursos para rodar como servidor de rede.

Um grande abraço,

Odair F.


#12 | Ricardo Ramos

O novo particionador do Sarge é lamentável. Demorado, pesado e desnecessário. Faz em 20 minutos (K6II450) o que o fdisk faz em 2 minutos. Ademais, a instalação padrão do kernel 2.4 é algo muitíssimo estranho e pouquíssimo desejável. Espero que o tal “instalador universal”, rígido, fechado e pouco claro, deixe as outras plataformas de lado. As configurações básicas do sistema foram automatizadas, são muito demoradas, e não são versáteis, e tampouco intuitivas. Saudades do Woody…


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