Livros que andei lendo e recomendo a vocês

Profissionais de tecnologia têm, em geral, uma tendência muito forte a ler apenas livros e artigos técnicos. Embora esse tipo de leitura seja extremamente importante, vital, na verdade, ler sobre outros temas é também de suma importância tanto para o nosso crescimento pessoal quanto profissional.

Escrever bem é um grande diferencial em um país onde a imensa maioria mal consegue se expressar, formular frases coerentes, quiçá passar para o papel de forma inteligível suas idéias, quando elas existem, claro. Escrever bem faz de você quase uma mosca branca no mercado, infelizmente.

E para aprender a escrever decentemente, só há duas coisas a fazer: ler muito e escrever muito. A prática leva à perfeição (um dia, claro). Nada melhor do que ler coisas escritas por quem escreve milhões de vezes melhor que você. Você aprende novos estilos de escrita, aumenta seu vocabulário, com sorte aprende onde colocar as vírgulas, pontos e crases. Enfim, você cresce.

E, de quebra, ainda se diverte, e muito. Alguns livros têm a capacidade de nos fazer viajar pra um mundo completamente diferente do nosso, mesmo que por algumas horas (ou mesmo minutos) por dia. Permitem que você vivencie experiências às quais nunca teria acesso se ficasse restrito apenas ao seu pequeno mundo de bits, bytes e tags.

Alguns livros vão ficar na sua memória pro resto da vida. Alguns vão até mesmo mudar a sua vida, pode ter certeza.

E não me venha com aquela historinha de que eu não gosto de ler, não tenho saco, etc e tal. Quantos livros você leu antes de começar a dizer que não gosta de ler? Só porque você leu Dom Casmurro na escola e achou um saco, não quer dizer que não vá se encantar por ele agora que sua adolescência chegou ao fim. Experimente antes, tire conclusões depois.

Digo isso porque eu mesmo já tive este comportamento. Não gostava de ler, dizia eu. Agora sei que perdi muito, muito tempo.

Porém, nos últimos tempos, tenho lido bastante, tomei gosto pela leitura. De certa forma, se tornou o mais saudável dos meus vícios. Um vício que periga causar crises terríveis de abstinência caso não seja satisfeito. Sem minha dose diária, me sinto incompleto.

(Isso aqui era pra ser só uma lista de livros, acabou saindo um texto “introdutório” maior do que eu imaginava). Espero que você ainda esteja comigo. Vamos em frente. Vamos à lista.

Cem Anos de Solidão

Esse é talvez o melhor livro que eu já li. Um livro que me deixou triste quando acabei de ler. Fiquei triste porque ele tinha acabado e eu não ia mais passar minhas tardes em Macondo, com seus Josés Arcadios, Aurelianos e Remédios. Escrevi até um post chorando minhas saudades de Macondo. Recomendo a todos. Faça com que esse seja o próximo livro da sua lista. É, na minha opinião, obrigatório.

Dica: alguns vão dizer a você para pegar papel e caneta e desenhar a árvore genealógica dos Buendía, pra não se perder no meio de tantas pessoas com nomes iguais. Não faça isso. Primeiro porque vai tirar boa parte da sua diversão, vai ser um exercício chato e segundo porque é totalmente desnecessário. Encare o livro como uma história sobre algo muito maior que Macondo, que vai muito além dos Buendía. Se uma vez ou outra você não souber se um José Arcádio é este ou aquele, relaxe, isso não é assim tão importante.

Memórias de Minhas Putas Tristes

Livro mais recente do Garcia Marquez. Dá pra ler em uma tarde, na boa. Conta uma história singela e interessante de um velho que busca uma noite de sexo com uma virgem e acaba encontrando muito mais. Tem o estilo inconfundível do Garcia Marquez, é gostoso de ler. Não é tão brilhante quanto Cem Anos, mas vale a leitura.

Ensaio Sobre a Cegueira

Até agora é, pra mim, o melhor livro do Saramago. Foi também o primeiro livro que li desse que se tornou um dos meus autores preferidos.

Fala sobre uma situação improvável, onde todos ficam cegos em um certo país. As situações são descritas com uma veracidade tão grande que você simplesmente entra na história. Me lembro de uma vez ter visto uma cena na TV, algum tempo depois de ter lido o livro e, na hora, falei, “olha, igualzinho ao manicômio do livro. A disposição das camas, a luminosidade, tudo igual”. Os cenários e cenas estão na minha cabeça até hoje.

O livro é angustiante, você sofre junto com os personagens, sente uma alegria enorme nos poucos momentos de felicidade daqueles pobres diabos cegos e sem recursos.

É uma história sobre a resistência do ser humano testada ao extremo. As atitudes (quase) irracionais e o quanto podemos mudar nosso comportamento caso ninguém esteja nos vendo. Mas, será que realmente não tem ninguém vendo? Nesses tempos em que provacidade é apenas mais uma palavra no dicionário, esse livro faz todo o sentido.

Dizem que a história vai virar filme. Provavelmente não vou assistir. Já tenho o filme na cabeça.

Dica pra quem nunca leu Saramago: ele escreve de um jeito completamente diferente de todo mundo. Não tem parágrafos, não tem pontos de interrogação, não tem travessões ou aspas. Eu xinguei o cara por umas 20 páginas e de repente aquele estilo começou a fazer sentido pra mim. Voltei ao início do livro. Por algum motivo esse estilo dá uma dinâmica sem igual à história.

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Mais um do Saramago, esse um clássico bastante conhecido. Conta aquela história que todo mundo conhece, mas de um jeito muito diferente. Jesus é um ser humano como outro qualquer, os costumes da época são expostos ao extremo.

Quando terminar de ler me diga: quem foi mais importante na vida de Jesus, quem o ensinou as maiores lições, Deus ou o Diabo?

Dom Casmurro

O exemplo lá do início, do cara que leu Dom Casmurro na escola e achou um saco, falava de mim mesmo. Mas, há pouco tempo atrás, aproveitei a coleção completa de Machado de Assis da minha sogra e resolvi ler esta e mais algumas obras deste nosso grande escritor. E posso dizer a vocês, o cara escrevia muito, mas muito bem mesmo. Vale a pena.

Dom Casmurro é um livro interessante em diversos pontos. Fala de uma relação destruída pela dúvida. Não só uma relação, mas uma vida. Até hoje se discute, Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Tire suas próprias conclusões.

Além de Dom Casmurro, li Helena, Memorial de Aires e dois volumes de Contos Fluminenses. Nenhum deles tão brilhante quanto Dom Casmurro, mas todos extremamente bem escritos, com histórias que poderiam acontecer (com as devidas mudanças relativas à época) aí, do seu lado.

(O texto já está longo demais. Vou parar por aqui. Se vocês gostarem dessas, outro dia escrevo por aqui outras recomendações.)

Estes são alguns dos livros que fizeram a minha alegria nos últimos meses. Recomendo a vocês e gostaria que vocês fizessem o mesmo. Que livros vocês recomendam? Por quê? Comentem.

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Leia também:

12 Comentários sobre “Livros que andei lendo e recomendo a vocês”

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Um livro que recomendo é Havana para um Infante Defunto de Cabrera Infante.
“..o adolescente personagem de Cabrera Infante (é narrado na primeira pessoa, tem muito dele) chega a Havana nos anos 40 e descobre sua sexualidade num cortiço e nos cinemas onde vai atrás de filmes e de moças, quase sempre apenas vistas de perfil, na semi-escuridão das salas, relações anônimas e efêmeras…”
Excelente!


Eu sou fã do O Perfume, Historia de um Assassino. do Patrick Suskind. Ja virou filme, mas nao sei o dia da estreia nas telas brasileiras.


O Perfume é muito bom. Estou esperando pela estréia.
Bruno Torres também é cultura.


Dom Casmurro é mesmo excelente. Um dos melhores livros que já li, sem dúvida. Há alguns meses li alguns contos do Machado de Assis, como O alienista e A cartomante (que virou filme, salvo engano). Todos muito bons também.

Dos que li recentemente, recomendo Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. É meio antigo (da década de 1930), mas mesmo assim muito atual e interessante, graças à temática futurista, densa e delicada.

Estou terminando de ler Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. O livro trabalha muito bem a questão da ética e da moral, é bem detalhado e de fácil leitura.

Bruno, sem querer ser pentelho, mas notei um errinho, bem comum aliás, no começo do texto. O correto não é “quissá”, mas sim “quiçá”. É, é estranho, mas é o certo (confere aí com o corretor ortográfico do Firefox, e se ficar dúvida, clica aqui ;)).

[]’s!


Cara parabéns você escreve muito bem!

Não tenho nenhum livro pra indicar, porque eu ainda não li nenhum, e escrevo muito mal, e tive coragem de montar um blog pra variar, mas vou começar a ler bastante agora, e esse seu sensacional texto me deu um grande incentivo. Obrigado!


#6 | Francisco Carlos

Bruno,
Sou um leitor entusiasta de clássicos e autores canônicos (Tchécov, Machado de Assis, Maupassant, J.L.Borges, T.Mann, M.Proust etc.). E veja, até a saga dos Buendia em Macondo eu reli recentemente, mas confesso que a leitura que fiz aos 15 anos foi mais estimulante, mexeu mais com minha imaginação.
Enfim, gosto dos clássicos mas não vou te recomendar nenhum deles, vc já é um leitor esclarecido. Geralmente eu gosto daquelas leituras de descoberta, aqueles achados que as listas de críticos deixam meio esquecidos. E a maior descoberta mais interessante que fiz recentemente e nos últimos anos se chama “O zen e a arte da manutenção de motocicletas” - Robert Pirsig (Paz e Terra). Nesse romance “on the road”, o narrador-protagonista viaja pelos EUA numa moto, tendo na garupa o filho adolescente. Cada capítulo tem impressões, histórias pitorescas e, sobretudo, observações muito argutas sobre nossa relação com a tecnologia, sobre como a manutenção de uma moto consiste simplesmente numa arte perceptiva e intuitiva, num uso paciente da razão, ele mostra muito claramente que diante de uma máquina é bobagem perder a cabeça sem perceber o que já perdemos dentro da gente. O narrador faz ainda incursões muito interessantes pelo universo da filosofia racionalista, Aristóteles, Platão.
Meu caro, só te digo uma coisa: é difícil não gostar do livro…

Abraços,
Francisco Carlos


Bruno, você já leu “Viver para Contar”, a autobiografia de García Márquez? Se você gostou de Cem Anos de Solidão (eu AMO, já li inúmeras vezes), recomendo muitíssimo. Estou lendo agora, e é impressionante. É como estar em Macondo novamente; as experiências que ele conta são tão extraordinárias como os eventos de seus livros de ficção, e é difícil discernir o que é verdade e o que é inventado. Estou adorando.

Saludos,
Nospheratt


Adoro ler tb Saramago, aconselho-te o best-seller dele, O Memorial do Convento. Sem duvida uma história muito bonita passada nos anos 1700. Voce tem de experimentar Eça de Queiróz, ele tinha uma escrita fenomenal. A maneira como ele escrevia e descrevia algo, voce sentirá que está vendo como o narrador!
Um livro que aqui em Portugal tem batido recordes é O Equador, de Sousa Tavares. Muito bom por sinal, dificilmente voce não gostará…


#9 | Lu

Adorei o artigo!

Dos livros citados, só não li “Ensaio sobre a cegueira”. O estilo de Saramago é mesmo único, a gente demora a se acostumar.

García Marquez é capaz de escrever as coisas mais surreais com tanta naturalidade que você realmente acredita nelas! E bem que tentei fazer a árvore genealógica da família Buendia, mas desisti logo e recomecei o livro da primeira página sem essa neurose, hehehe! O livro que estou lendo atualmente, aliás, é dele: “Doze contos peregrinos”. Recomendo!

Mas a principal recomendação é “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, do Machado de Assis. Se gostou de “Dom Casmurro”, provavelmente vai amar “Brás Cubas”. Sempre tenho dificuldades em fazer um Top 5 de livros, porque gosto de muitos, sobre temas diversos, mas sem dúvida “Brás Cubas” é O melhor!


#10 | Lu

Ah, foge dos “clássicos”, mas eu preciso recomendar: leia “Não me abandone jamais”, do Kazuo Ishiguro (o mesmo autor de “Vestígios do Dia”). É um dos livros mais impessionantes que já li!


#11 | Marina

Adorei seu artigo.
Li muito na infancia, e posso dizer que escrevo bem.
Me perdi em algum lugar no caminho, provavelmente depois de “Dom Casmurro na escola”.
Nao tenho saco pra ler. Nao consigo me concentrar. Compro livros e quase nunca os termino, se eh que os inicio. Nao tenho motivacao e isso me frustra consideravelmente.
Achei seu blog buscando no google por “nao gosto de ler”, pois estou desesperada com essa minha inercia em relacao aa leitura. Anotei os livros que voce indicou. Vou me dar mais uma chance, pois sei que cada livro nao lido eh uma oportunidade perdida.
Obrigada…


#12 | Daniela

Olá, gostaria de presentear uma pessoa, sei que ela amau e já leu várias vezes Cem Anos de Solidão, pra não errar quero um livro na mesma linha…
Alguém pode me ajudar?


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